Diálogos Inconsequentes

domingo, 21 de outubro de 2012



O garoto sofria de uma doença rara, a Síndrome de Comer Tudo. Ele comia carnes, metais, madeiras, papéis, ar… A única coisa que não suportava eram as palavras. Dessas, o menino ficava longe (…)


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Se dependesse dele, nunca pisaria numa biblioteca. Porém sua mãe bateu o pé, obrigou. É bom pra tua educação, o frei Lourenço indicou. Frei Lourenço! Ele preferia ir à casa do Zezé, assistir as novas fitas de bang bang, ou então comer manga com sal. Mas mãe é mãe, tem que obedecer. Ou ficaria de castigo, sem lanche, e isso Quim não suportaria.

Pedalava sua velha bicicleta pelas ruas esburacadas. A única biblioteca da cidade ficava a um bom palmo de distância. Pedalava um pouco e parava, cansado. Em dois minutos, recomeçava a andar. Nesse sistema, alcançou o seu destino uma hora além do planejado. Suado, Quim entrou no prédio que, à primeira vista, parecia abandonado. Tudo muito calmo, sem ninguém; as estantes entulhadas de livros cobriam as paredes e mesas espalhavam-se por todo cômodo. Ele sentou-se, nada interessado pelos livros, esperando que alguém o atendesse.

– Olá – disse uma voz ao seu lado.

O garoto levou um susto. A pessoa chegara sem nenhum barulho.

Uma menina o olhava, curiosa. Era magrinha e usava óculos de aro grosso, que de quando em vez escorregava no nariz. Ele sentiu-se enorme ao seu lado e para acabar com essa impressão, resolveu encurtar a visita. Pegou da calça o papel onde havia anotado os livros que frei Lourenço indicara e perguntou se ela podia ajudá-lo.

– Infelizmente não. –  a menina falou, lendo o papel. – Esses livros de história global e biologia animal estão lá em cima, só um adulto alcança.

– E cadê seu pai?

– Meu pai?

– Sim, o responsável daqui.

Ela riu:

– O bibliotecário não é meu pai.

– Então como você sabe onde fica esses livros? – o garoto perguntou.

– Eu moro aqui.

Quim não entendeu a resposta. Ela devia estar brincando.

– Você sabe quando ele volta?

A menina deu de ombros.

– Ih, é capaz que demore. Se tivesse vindo há meia hora, pegava ele aqui ainda.

Ele pensou no tempo que estava perdendo. Certamente Zezé assistia agora às fitas; além disso, sua barriga roncava. Mas se não voltasse para casa com os livros, levaria uma coça. Resolveu esperar mais um pouco.

– Qual o seu nome? – Quim indagou, quando a garota aquietou-se num canto da biblioteca, mexendo nos livros.

– Iná, e o seu?

– Quim.

– Quim. – ela repetiu, colocando uma pilha de livros frente a ele. – Já que ficará, por que não lê alguns livros para matar o tempo? Tem do Lobato, do Carroll. Certeza que vai gostar.

Quim leu os títulos das obras. Caçadas de Pedrinho. Alice no país das Maravilhas. O chamado da selva. Só os nomes já lhe davam sono.

– Não, agradecido.

– Tudo bem. – ela falou, folheando o Caçadas. Em seguida, tirou um lápis e uma caderneta dos bolsos e começou a escrever.

O lápis deslizou pelo papel durante muitos minutos. Impaciente e entediado, ele perguntou o que ela fazia.

– Estou escrevendo um romance. – disse simplesmente.

Um romance? Ao que parecia, ela não completara nem doze anos. Que capacidade tinha para isso?

– Um romance, é? Sobre o que? – Quim continuou a falar, só para o assunto não morrer.

– É sobre um menino que tem SCT, Síndrome de Comer Tudo. Tudo mesmo. Não poupa tijolos, mesas, come até ar e gente. O nome que dei ao livro é Diálogos Inconsequentes.

– Que história sem pé nem cabeça. – ele observou – Por que esse título?

Iná ignorou a crítica. Conhecia o tipo que não lia.

– Quando eu lançar o livro, saberá por que.

Quim riu-se por dentro. Lançar um livro naquela idade, vê se pode. Mesmo assim, por pura falta do que fazer, pediu que ela dissesse o que ocorria ao menino no fim.

– Não sei ainda – Iná começou – Não estou nem na metade. Mas o que pode salvar o menino e as pessoas são as palavras. Ele é alérgico a elas. Verei o que faço.

O garoto olhou o grande relógio na parede. Já passavam das quatro da tarde, teria que vir outro dia. O tempo voara. Esquecera-se até do bang bang e das mangas.

Quim levantou-se devagar da cadeira, como se não quisesse ir. Protelando, expôs outra dúvida:

– Há quanto tempo está escrevendo esse romance?

Iná corou, gaguejou.

– Bem… Desde meia hora atrás. Me veio uma inspiração repentina.

O menino demorou um pouco para entender e, ao compreender, sua face ardeu de raiva. Antes que ela conseguisse dizer algo, Quim montou sua bicicleta e se foi.

Apesar dos queixumes da mãe, ele nunca mais voltou à biblioteca.

 (Elaine Rocha, 18/10/12)





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