A escolha

segunda-feira, 17 de junho de 2013



A chuva caía sobre o corpo magro da garota. Sua solidão era constante e o seu futuro, incerto. Não sabia o que fazer para reencontrar-se. O mundo lhe pertencia e lhe fugia.

Mas, mesmo com as gotas embaçando seus óculos, ela ainda conseguiu vê-lo. O ponto entre suas vontades e seus medos. Ele sorriu ao longe e acenou, chamando-a. Dizendo com gestos que a escolha era dela.


Ela hesitou, limpou os óculos. E pela primeira vez na vida caminhou em direção ao sol.

(17/06/13)


Observação

terça-feira, 11 de junho de 2013

A vida sempre é legal com quem não presta. Foi isso que aconteceu com Billy T., um homem bonachão e de riso fácil, que gosta de contar piadas sobre sua vida amorosa picante. Ele mora num casarão, com vista para o mar, embora até hoje ninguém saiba como enriqueceu. Narcotráfico, diziam os sussurros, e há anos a polícia o persegue, à procura de pistas ou de algum deslize. Mas Billy também não é idiota.

A única família que tem é uma filha rebelde de 16 anos e dois sobrinhos postiços, que o acompanham em seus "negócios". Suas piadas sujas os encantam, principalmente a Cataputa, uma montanha humana de músculos. Rip é mais calado e sorri discreto (quando sorri). Mas isso não desanima Billy, que toda noite, no jantar - hora sagrada -, continua seu monólogo feliz, nem se importando que a filha o ouça. Não que ela ouça, só mexe no celular, comendo pouco. Acha o pai um porco nojento e se a mãe não lhe obrigasse a visitá-lo, nunca iria à casa dele.

Esta noite Billy contou outro caso do que significa o T em seu nome. Todos os dias tem uma nova história e a de hoje é previsível: uma espanhola, entre um orgasmo e outro, o chamara de tesão. E o apelido pegara. Cataputa soltou uma gargalha sonora, ria de qualquer merda que o chefe falasse. Então a mesa ficou uns minutos em silêncio, enquanto Billy terminava sua macarronada, até que o telefone da garota tocou. Ela saiu quase correndo da sala, um raro sorriso tênue no rosto. Certamente era Mia, sua namorada gótica e esquisita, que tinha sérios problemas psicológicos.

Billy olhou a filha saindo e franziu o rosto.

- Por que essa tal de Mia liga tanto? Até na hora do jantar.

Cataputa debochou:

- Você sabe, sua filha prefere brincar de boneca que de carrinho.

- Ahn?

- É que ela não gosta muito de varinhas - o outro falou.

Billy coçou a face:

- Por que estamos falando de Harry Potter? Seja mais claro.

Rip revirou os olhos para Cataputa e foi direto:

- O que ele quis dizer é que sua filha é lésbica. E Mia é a namorada.

- Ah, é. - Billy T. concordou. Às vezes era mais lento que o normal. - Tinha me esquecido disso. Pensei que era brincadeira da mãe dela. E você devia guardar seus comentários para si, Cat.

Cataputa corou, e desculpou-se solenemente.

Billy fez sinal para ele parar. 

- Ok, ok. O jantar está ótimo hoje, Tom, usou alguma receita especial?

- Não, só tomate apodrecidos - respondo, sorrindo.

- Você é o cara, Tom. - ele ri, espalhafatosamente, e pede a sobremesa para a serviçal.

Deixo meu prato de lado. Cozinho para Billy há quase um ano e divido a mesas com eles durante as refeições, o que é uma honra. Sou especialista em comida italiana, segundo meu currículo, e também agente federal. Me infiltrei aqui para tentar destruir o esquema das drogas, mas em menos de dois meses Billy descobriu tudo. Então ele dobrou meu pagamento e me tornei agente duplo, colho informações policiais secretas, mas desconfio que Billy só me deixou viver por causa da comida que faço.

Bem, não importa, agora sou totalmente fiel a essa nova família.

(Será?)



Ao Vento

quarta-feira, 29 de maio de 2013


O cavaleiro inexistente

terça-feira, 28 de maio de 2013


Trechos selecionados do livro O cavaleiro Inexistente, de Italo Calvino.


Talvez não se possa chamá-lo de doido: é só alguém que existe mas não tem consciência disso.

(pág. 26)

Combater ao lado de um companheiro é muito mais bonito do que lutar sozinho: ganha-se em coragem e conforto, e o sentimento de ter um inimigo e o de ter um amigo se fundem num mesmo calor.

(pág. 39)

Aquilo que minhas orelhas ouviam meus olhos entreabertos transformavam em visões e meus lábios silenciosos em palavras e palavras e a pena se lançava pela folha branca, correndo atrás delas.

(pág. 44)

A arte de escrever histórias consiste em saber extrair daquele nada que se estendeu da vida de todo resto; mas, concluída a página, retoma-se a vida, e nos damos conta de que aquilo que sabíamos é realmente nada.

(pág. 53)

A guerra vai durar até o final dos séculos e ninguém vencerá ou perderá, ficaremos imóveis diante dos outros para sempre. E sem uns os outros não seriam nada e hoje tanto nós quanto eles já esquecemos por que combatemos... Ouve estas rãs? Tudo aquilo que fazemos tem tanto sentido e tanta ordem quanto seu coaxar, aquele saltar da água para a margem e da margem para a água...

(pág. 59)

Começa-se a escrever com gana, porém há um momento em que a pena não risca nada além de tinta poeirenta, e não escorre nem uma gota de vida, e a vida está fora, além da janela, fora de você, e lhe parece que nunca mais poderá refugiar-se na página que escreve, abrir um outro mundo, dar um salto.

(pág. 61)

Num certo ponto a paixão por ela é também paixão por si próprio, é apaixonar-se por aquilo que poderiam ser os dois juntos e não são.

(pág. 72)

Toda a natureza é amor...

(pág. 85)

A trilha sonora da nossa vida

sexta-feira, 24 de maio de 2013


Todas as suas palavras propagam no ar. Lindas, mas malditas, Mary. No rádio o Guns Canta: Don't cry, tonight... Contudo, não consigo parar as lágrimas. 

Cantávamos no ritmo cáustico da nossa aspiração, amor. Astros do rock caídos, chamas apagadas da fama. Sua voz alcançava os vivos, os mortos, os próprios anjos. Assim como alcançava a minha alma cansada.

I'm still loving you, (I'm still loving you baby).

 Os nossos discos continuam tocando, do Scorpions ao Bon Jovi - agora são vazios como a sua partida. Não há motivos para ouvi-los, não com um só corpo acompanhando a batida. Não há motivos para sair da cama, orando todo dia para acordar com as suas mãos nas minhas. Não há motivos para sorrir, Mary. Sua música favorita toca, tão, tão dolorosa:

 I'd still miss you, baby
And I don't wanna miss a thing. 

O mundo não suportou a carga dos nossos sonhos. Frágil como nós dois, mas pronto para arruinar a força íntima. Ilusão sob ilusão, sua voz já não alcançava a multidão, ficou rouca, fraca... Morta. Mary, a trilha sonora da nossa vida toca por toda a casa, a cada minuto. A combinação fracassada do amor aliado às drogas.

Isso dói tanto quanto um vício. Mas não tanto quanto os sussurros ditos por sua boca. As suas últimas palavras paradas no infinito.

Uma declaração de amor para a pessoa mais importante do mundo

domingo, 12 de maio de 2013



Ela está ao seu lado desde o primeiro segundo da sua existência. Ela te alimentou, te ajudou a dar os primeiros passos, foi sua mais adorada namorada. Ela sorriu com suas pequenas vitórias, chorou nas suas quedas e o levantou sempre que você não via nenhuma solução. Ela brigou com você, mas nunca pelo seu mal, pois ela sempre quis que fosse melhor. Ela sempre perdoou os seus erros e nunca te abandonou mesmo quando magoada. Ela é a mulher mais forte que conhece e você se assusta quando a vê chorar. Ela é "a flor de todos os tempos", é a eternidade, é a personificação de todas as qualidades e defeitos existentes. Ela te ama com pureza e nunca pede nada em troca e morreria por você sem hesitar. E por isso todos dos dias são delas e ela merece todo o amor que você puder dar.

Feliz dia das mães, sempre.

Pleno e Vazio

quarta-feira, 8 de maio de 2013



Os rostos sem expressão adquirem um sorriso de escárnio
Nas luzes parecem zombar de mim, mas nas sombras refletem o meu íntimo
Atormentado por tudo que não vivi com você, estou à mercê da solidão
Mas sei que a solidão é preferível à ilusão que sua companhia trazia
Eu me perdi em seu abismo e a queda foi abrupta demais
Suas palavras e seus gestos são refeitos a cada instante para atenuar a dor
Poderia chamar de vida o que vivo? Isso também não tem importância
Eu só queria sentir uma vez mais o sopro dos seus lábios sobre a minha face
Dizendo que tudo era eterno e que o amor não tinha explicação
E que nem um golpe súbito arrancaria a certeza em nosso sangue
Entretanto, fomos só um esboço do que queríamos ser
Perfeitos para morrer pelos sonhos e desejos que tecíamos para nós
Tantas chances para vencermos, tantas chances para perdermos
Você, sem me fitar, escolheu a segunda opção e quebrou todas as promessas
Agora minha alma envelheceu cem décadas, embebida de lágrimas negras
E você virou anjo sem misericórdia, as asas delicadas a ponto de ruir
Talvez eu já esteja morto há tempos, não sei ao certo o que pensar
Mas sei que a única coisa que me mantém aqui é o seu toque frio
Ferindo e salvando o meu corpo, enquanto torno-me plenamente vazio

(08/05/13)



imagem: psicopatas anônimos







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